Messias, o salvador da comfort food

Esses dias estava passando pelo bairro onde morei há alguns anos. Na época que morei com a minha avó. Sempre gostei de lá pela praticidade. Muitos serviços a poucos passos de casa. Uma padaria com um ótimo pão francês. O nosso carioquinha quentinho (agora imagine com um café). Ah, tinha um bolo de chocolate delicioso também. Sabe aqueles com calda? Tinha também uma academia, e claro, uma pracinha bem bucólica. Daquelas que os vizinhos se reúnem toda semana para rezar o terço. Na praça, uma banca que eu comprava várias revistas, e o Messias. 

Na verdade, criador e criatura se confundem. É o nome dele, mas também do seu estabelecimento, um trailer (hoje food truck) na praça, onde serve um dos melhores sanduíches que já comi. Não por ingredientes “chiques” ou importados. Mas por fazer o básico bem feito. O conceito também está na simplicidade. Inclusive, prefiro muito mais uma comida assim, que as que são “apenas” bonitas. Enfim, quase todas as noites, depois da correria do dia, passava lá, sentava para assistir o jornal e saborear um sanduíche de frango. Era o fechamento do dia. Quase que uma tradição. 

Anos depois, nos dias de hoje, já morando em outro bairro, estava passando ao lado da praça e, para minha felicidade, o trailer já estava funcionando. Não sei se acontece assim com todos, mas no mesmo instante eu lembrei do passado. Um saudosismo que me deixou feliz. Lembrei da época de estudante, da minha avó (que saudade), e, claro, do sanduíche. Divino, aliás. Parei para comer e relembrar os velhos tempos. E ainda bater um papo com o Messias. Pode parecer meio piegas, mas a cada mordida, uma lembrança.

Tenho um pouco de preconceito com o termo, mas em toda essa experiência cabe o conceito da “comfort food”. Nostálgica. Mas aí é que está. Se não fosse o Messias, o local (e o dono) onde eu tive essa experiência, não seria um cozinheiro que iria reproduzir isso. Cada um tem a sua “comfort food”, e não dá para ser criada em série. Felizmente, temos os nossos salvadores.

Foto por George Frewat em Pexels.com

Comer na rua, boa ideia?

Sempre quando vejo pessoas comendo na rua, altas horas da noite, fico com a sensação de que são corajosas ao extremo. E são mesmo. Outro dia, voltava de um evento, quando avisto um bar bem movimentado. O espaço, por outro lado, era mínimo. Apenas um balcão extenso onde eram servidas as bebidas. Além do bar (que era minúsculo) estar cheio, as pessoas aproveitavam mesmo na calçada. Estava um formigueiro. Pessoas se divertindo livremente, como se o mundo fosse um mar de rosas. Com a sensação de segurança nos pés e, mesmo assim, enfrentam a noite para se divertir.

Eu, pelo menos, acho um risco enorme sair de casa para comer na calçada, ou em uma varanda para a rua. Não sei se é a ansiedade, mas sempre acharei que pode aparecer um ladrão a qualquer momento. E isso paralisa. Faz com que nem aproveitemos a comida. E pode ser a melhor comida, mas se for para comer na calçada, ela trava na garganta. A noite realmente é maravilhosa, e com muito a se aproveitar. Mas, hoje em dia, só arrisco aproveitá-la em lugares fechados. No máximo, com vista para a rua. E isso de uma distância segura.

Hoje é comum eventos, inclusive de gastronomia, que tentam imitar a rua, mas com segurança, como food trucks estacionados dentro de um terreno (embora seja um absurdo), e festivais de comida de rua em locais cercados. Embora seja errado, foi a saída que as pessoas encontraram para ter uma falsa sensação de segurança. Inclusive está na moda hoje o discurso de apropriação dos espaços públicos. Também defendo isso, com mais atividades ao ar livre e uma verdadeira ocupação. É claro que precisamos de garantias de que o “estar” na rua seja seguro. Ou, pelo menos, que exista a sensação de que estamos seguros.

Infelizmente a bandidagem e, obviamente, a insegurança, foram nos afastando da rua. Calçada? Jamais! Varandinha? Deus me livre! Cobro de mim mesmo essa participação maior nos espaços ao ar livre. Se o poder público não nos dá essa sensação, tentemos aos poucos essa apropriação. Ansiedade de lado (ou após um comprimido), para aproveitar a comida sob a luz do luar.

Foto por Sunyu Kim em Pexels.com