Caderno de receitas

Quando um ano está prestes a acabar e, claro, quando o novo começa, as pessoas costumam repensar no que fizeram, o que deu certo, e o que precisa mudar de direção. Pensar também em metas para os próximos 365 dias. Financeiras, morais… de vida. Li que você deve escrever suas metas em um caderno. Ativa algo no cérebro. Meio que “força” você a correr atrás de realizar esses sonhos. Obviamente precisam ser metas que podem ser cumpridas. Não adianta escrever lá no papel que você vai comprar a Ilha de Caras daqui um mês. Se bem que, pensando melhor, esses sonhos mais “elaborados” também nos movem. Talvez comprar uma ilha pode estar na aba “a longo prazo”.

Decidi escrever minhas metas. Todos temos sonhos, e deve ser bom deixá-los, “palpáveis”. Nem que seja no papel, em um primeiro momento. Não vou trazer aqui por motivos de que só é bom revelar depois de realizados. Mas tenho uma meta que acho que posso compartilhar com todos: ter um caderno de receitas. E um daqueles bem recheados, a cara das famílias grandes. Receitas tradicionais, novidades, releituras, sobremesas… E também aquelas notas que as pessoas vão adicionando ao caderno longo do tempo. “Fulano indicou chocolate ao leite, mas com o amargo fica bem melhor.” Ou então, aqueles pedaços de papel com receitas que você escreve correndo enquanto assiste TV.

As receitas, escritas no papel, não deixam de ser metas, sonhos. Na verdade, registros de que esses sonhos foram realizados ou ainda podem acontecer. Registros também de memórias… encontros de família, de amigos. À mesa, no balcão da cozinha, na piscina, em volta da fogueira. 

Quantas memórias guardadas no papel. Quantas ainda serão escritas. E, quem sabe, desfrutando da beleza paradisíaca de uma ilha.

Foto por Isaiah em Pexels.com

Um dissabor que o pôr do sol instagramável não conseguiu salvar

Esses dias postei nas redes sociais do BLOG SEM RÓTULO uma crítica, um pouco velada, a um restaurante em Fortaleza. Na verdade, um texto pequeno, no story e no calor da emoção (ainda estava esperando o carro na recepção para ir embora). Nem citei o nome, mas comentei sobre os problemas no atendimento. Uma experiência ruim para a primeira vez que pus os pés no local, e que, dificilmente, andarei de novo. Ou melhor, posso até andar por lá de novo, mas não antes de esquecer o amargor dessa primeira ida.

Fui convidado para um evento. Até aí, tudo bem, já que, como jornalista, sempre recebo convites do tipo. Inclusive, fiquei bem animado para esse evento justamente porque iria conhecer o dito-cujo, um restaurante super badalado e “instagramável” (ainda se usa esse termo?). E quando um espaço aceita realizar um evento, obviamente tem a capacidade de atender todos os convidados pelo menos dignamente. O local é, de fato, muito bonito, espaço agradável, vista é linda, e os funcionários atenciosos. Tentaram, em vão, contornar a situação.

Em paralelo, um outro evento acontecia no lugar, e claramente não deram conta. Pedir água era motivo de nervosismo. E as entradas? Talvez fossem maravilhosas, mas não tive a oportunidade de provar, pois não chegaram. Lembra que no começo do texto eu falei sobre “amargor”? Na verdade, não senti gosto nenhum, porque as comidas não chegaram. E olha que eu ainda esperei… Está mais para um dissabor mesmo. O garçom perguntou se estava tudo bem. Eu respondi não. Acabei desistindo, e fui comer em outro lugar. Não era “instagramável”, mas você não passa vontade. Na saída, ainda falei com uma pessoa da organização sobre o ocorrido.

“Ah, mas tava muito cheio”. Seria melhor que não aceitassem eventos grandes. “Ah, mas você tem que ir sozinho, em um dia normal”. Tudo bem, aceito ir lá depois. Mas, por enquanto, o pôr do sol, tão lindo lá, está ofuscado.

Foto por alexandre saraiva carniato em Pexels.com

Restaurantes fechando e uma mistura de “ai que pena” com “não sei como durou tanto”

Nos últimos dias acompanhei notícias de uns três restaurantes anunciando fechamento. Um já havia fechado uma vez. Depois, reabriu, e, agora, fechou de novo. O outro abriu, depois abriu mais uma unidade. Primeiro, fechou a segunda loja. E, agora, fechou o restaurante original. E o outro só abriu e fechou mesmo. Mas cada um com suas particularidades (e, cá para nós, seus erros) que levaram a fechar as portas.

É triste quando um empreendimento deixa de funcionar. Imagino as dificuldades que enfrentaram diariamente para manter tudo aberto. Fornecedores, insumos, contas, IMPOSTOS. Sem falar dos imprevistos, gente chata… Por outro lado, quando acompanhamos um pouco a gastronomia – e nem precisa ser de perto não – podemos perceber alguns detalhes que podem contribuir. Claro que não é só um fator que decreta o fechamento de um estabelecimento.

Tem lugar que você se apega. Pega gosto pelo ambiente, pessoas, cores, comida boa. Aí se surpreende com a notícia do fechamento. Fica órfão de um lugar bom na cidade. Lembra que só comida boa e um lugar bonito não garantem a continuidade. Além de uma boa gestão, para manter a sustentabilidade do negócio, é preciso fidelizar o cliente. Imagina um lugar que faz toda a sua história atendendo um tipo de público e, de repente, muda tudo. Vai precisar de tempo e dinheiro para bancar esse esquecimento de quem estava lá. Mas é uma pena.

Por outro lado, só gestão não segura um lugar que não tem uma comida boa e o aconchego que um ambiente com atendimento ao público precisa ter. Cardápio confuso, espaço perdido, serviço idem… Haja dinheiro para manter a casa funcionando mesmo sendo ruim. Tem lugar que você se apega, mas tem aqueles que no dia da inauguração você já percebe que não vai ser bom. Ai questiona como durou tanto.

Mercado muda, os desafios mudam, e o empreendedor precisa estar pronto. O cliente chato é que não muda. Mas engrossa o couro. 

Foto de Kaique Rocha em Pexels.com

Messias, o salvador da comfort food

Esses dias estava passando pelo bairro onde morei há alguns anos. Na época que morei com a minha avó. Sempre gostei de lá pela praticidade. Muitos serviços a poucos passos de casa. Uma padaria com um ótimo pão francês. O nosso carioquinha quentinho (agora imagine com um café). Ah, tinha um bolo de chocolate delicioso também. Sabe aqueles com calda? Tinha também uma academia, e claro, uma pracinha bem bucólica. Daquelas que os vizinhos se reúnem toda semana para rezar o terço. Na praça, uma banca que eu comprava várias revistas, e o Messias. 

Na verdade, criador e criatura se confundem. É o nome dele, mas também do seu estabelecimento, um trailer (hoje food truck) na praça, onde serve um dos melhores sanduíches que já comi. Não por ingredientes “chiques” ou importados. Mas por fazer o básico bem feito. O conceito também está na simplicidade. Inclusive, prefiro muito mais uma comida assim, que as que são “apenas” bonitas. Enfim, quase todas as noites, depois da correria do dia, passava lá, sentava para assistir o jornal e saborear um sanduíche de frango. Era o fechamento do dia. Quase que uma tradição. 

Anos depois, nos dias de hoje, já morando em outro bairro, estava passando ao lado da praça e, para minha felicidade, o trailer já estava funcionando. Não sei se acontece assim com todos, mas no mesmo instante eu lembrei do passado. Um saudosismo que me deixou feliz. Lembrei da época de estudante, da minha avó (que saudade), e, claro, do sanduíche. Divino, aliás. Parei para comer e relembrar os velhos tempos. E ainda bater um papo com o Messias. Pode parecer meio piegas, mas a cada mordida, uma lembrança.

Tenho um pouco de preconceito com o termo, mas em toda essa experiência cabe o conceito da “comfort food”. Nostálgica. Mas aí é que está. Se não fosse o Messias, o local (e o dono) onde eu tive essa experiência, não seria um cozinheiro que iria reproduzir isso. Cada um tem a sua “comfort food”, e não dá para ser criada em série. Felizmente, temos os nossos salvadores.

Foto por George Frewat em Pexels.com

Modinha

Inaugurou uma loja? O local enche de gente por vários dias. Um restaurante? Vão todos. Gostam da novidade. Da moda. Aí passa o período de “curiosidade” e somem. Inclusive, cala-te boca, um restaurante aqui em Fortaleza, super badalado quando abriu, tinha fila de espera para comer. Todos os dias. Passado o calor da novidade, as pessoas viram que a comida, embora gostosa, não valia o preço que o lugar praticava. Claro que existem vários fatores para a precificação de um produto, já que também pagamos pela qualidade dos insumos, localização… Até os utensílios. Mas não vem ao caso agora. Eu estou falando de modinha. Moda que já passou pelo frozen yogurt, hambúrguer artesanal, açaí…

Pra quê toda essa introdução? Para falar do pistache. Uma frutinha que tem feito o maior sucesso. Há algum tempo, diga-se de passagem. Pensava até que não duraria tanto. Mas os restaurantes e marcas se superam diariamente. Calda de pistache, brigadeiro, bolo, sorvete, biscoito, taça da (in)felicidade, iogurte, pasta, patê… Isso sem falar dos pratos salgados! A modinha que chegou e tem se estendido. O motivo seria a cor verde?

Poderia até falar que não têm imaginação, para somente usar pistache em tudo, mas criar várias receitas com o mesmo ingrediente também demanda energia, tempo e, convenhamos, criatividade. Muita.

Realmente o pistache é gostoso, e eu não estou levantando bandeira contra. Mas sim contra o bizarro, o exagerado, e a moda da modinha. Imagina se um restaurante vivesse só disso. Todos os dias abririam e fechariam vários. Não estou falando da criação de um prato, de um conceito… Que isso vire moda.

Foto por Marina Leonova em Pexels.com

Taça da (in)felicidade

Os bons alimentos, os bons pratos, impressionam pelo sabor, pela apresentação. Somado a isso, ambiente, atendimento… Mas parece que ultimamente alguns locais investem em pratos que impressionam pelo espanto. Que triste. Não precisa ser gostoso, basta ser feio. Parece que hoje o “feio” engaja mais. Realmente, era de se esperar, pelas dancinhas e “memes” sem pé nem cabeça que a gente vê nas redes, pelas milhares de subcelebridades que se autointitulam “influenciadores”. Na verdade, algumas pessoas acham “lindo”. Será que podemos julgar o gosto dos outros? Só um pouco, talvez. Meu lado otimista insiste em crer que isso é só uma moda.

A moda da chamada “taça da felicidade”, que leva esse nome não sei por qual motivo, (ftá mais pra infelicidade) caiu nas graças de muita gente. Deve ser pelo inusitado. É uma taça cheia de sorvete e outros adicionais, como frutas e chocolates. Até aí, tudo bem, mas também tem cobertura por toda a taça, e os adicionais também. Quando eu digo “por toda a taça” eu quero dizer “por todo o lado de fora da taça”.

Realmente, tomar um bom sorvete deixa qualquer um feliz, mas ver o sorvete escorrendo, ficar catando ingrediente na parte de fora da taça (e às vezes na mesa), não é das experiências mais felizes. É preciso ficar passando a colher por fora da taça para “raspar” a cobertura. Ou seria melhor lamber a taça toda? 

Nem criança, que gosta mais do lúdico, ia querer voltar para casa com a roupa toda grudada de calda e M&M’s. Seria uma infelicidade. Na boca vai melhor. 

Foto: reprodução internet

Cardápio digital e o ódio que sobe junto com a azia

Como eu sempre digo, tudo, absolutamente TUDO, ao chegar em um restaurante, faz parte da experiência. Digamos que o “comer” é a cereja do bolo (que brega), coroa a minha saída de casa, e a minha dedicação para me vestir e ir até um local. Ambiente, serviço, comida… tudo faz parte. Até antes, não é mesmo? A vontade de sair de casa, creio eu, já faz parte. Imagina: o restaurante pode ser maravilhoso, super exclusivo, três estrelas Michelin, mas se você sai de casa, bate o carro, ou, sei lá, escorrega na calçada e se suja, a experiência vai ser completamente diferente. E olhe lá se ainda quiser comer.

Mas quando ainda decide comer: o prato é bem apresentado, ingredientes selecionados… Aí sobe aquela azia feroz. Outro momento ruim da experiência de comer fora. E sabe o que está no mesmo patamar de uma azia que o antiácido não combate? O cardápio digital. Durante a pandemia, até pela exigência de redução de contato com os outros (até aí, justificável), se popularizou o uso do cardápio em formato digital em bares e restaurantes. Mesmo depois da vacinação e o funcionamento pleno dos espaços, essa moda, para o mal, permaneceu. Nem a geração Z aguenta!

Você chega no estabelecimento e se vê obrigado a escanear o código em uma plaquinha, na beirada da mesa, em um adesivo borrado que nem a lente de um telescópio consegue decifrar. Aí, se você está sem celular (ou está com o aparelho prestes a descarregar), cai em desgraça. O telefone do amigo passa a ser comunitário. De tempos em tempos, se humilha para olhar o cardápio. Se for pedir petiscos e várias bebidas, adeus.

Usam como justificativa o alto custo para produzir cardápios. “E se o preço mudar?”, “e as árvores?” dizem. Olha, não precisa ser um cardápio tipo livro, com várias fotos (que brega, também). Sei lá, uma folha (reciclada) impressa em uma prancheta, um cartão, um led, uma lousa… Vamos de boa vontade.

No Rio de Janeiro aprovaram uma lei obrigando bares e restaurantes a oferecer, TAMBÉM, o cardápio físico. O ideal seria que os próprios estabelecimentos percebessem essa necessidade, sem a interferência do governo. Mas, quem sabe, essas leis não são os nossos antiácidos.

Foto por Lina Kivaka em Pexels.com

A farofa, os farofeiros e a nova farofa

A farofa é um prato genuinamente brasileiro. Herança indígena. Seja no acompanhamento ou até mesmo como destaque no prato, a combinação de farinha de mandioca e gordura é um sucesso. Se quiser incrementar e adicionar mais algum ingrediente (bacon, carne, ovos, cebola, alho), sucesso também. Como também guardamos boas comidas na memória, lembro da melhor farofa que já comi. Em Fortaleza mesmo. Uma chef cearense, em um restaurante pequeno, bem aconchegante e super exclusivo. Tão exclusivo que nem placa tinha, e a propaganda é feita no boca a boca. Super crocante e saborosa. Não gosto muito que usem o termo “gastronomia afetiva” (na verdade, não gosto nem um pouco), mas é óbvio que existem boas lembranças com as comidas.

Farofa também lembra de praia. As famílias chegam com seus depósitos e caixas térmicas cheias de comida. Cada família guarda seus saberes e seus sabores. Cada depósito com um tempero. As famílias se divertem, aproveitam o sol, o vento… Algumas levam as suas caixinhas de som, seus instrumentos, e transformam a areia em um belo palco. É o popular genuíno. Percebemos a alegria das famílias, que tiram um tempo da loucura do mundo para aproveitar a vida.

Agora surge uma nova farofa. Essa, que não orna nem como prato principal e nem como acompanhamento. Sabe aquele bacon que passa do ponto na panela e que amarga na boca quando você prova? Misturam na farinha e acabam desandando a farofa toda. Mas tem quem aplauda. A série Black Mirror já havia cantado a pedra há algum tempo e, mesmo assim, assistimos de camarote (ou pelas telas do celular) o futuro chegar. (Sub) Celebridades com seus trajes, no mínimo, de gosto duvidoso (mas aí fica na dúvida de cada um), no desespero por likes, se rendendo à humilhações e atenção do exército fiel de fãs.

Tem quem goste. Indústria milionária. Ar de exclusividade e superioridade. Quem vê de fora, deslumbrado, pensa ser a feira dos campeões. Tal qual uma feira de rua, a exposição das peças, de pessoas que vivem do espetáculo, e que, ao mesmo tempo, se ofendem pela exibição do que não está no roteiro. Eu, simples mortal, só acompanho. Na companhia de uma frigideira, manteiga e, claro, farinha. Farofa de qualidade.

Imagem: reprodução internet

Danuza, o cotidiano e o contemporâneo

Além da motivação com os professores mais “da Literatura” na faculdade, Danuza Leão foi a “responsável” pela minha entrada nesse mundo. Mundo da escrita, das crônicas (que às vezes eu acho que nem são, mas tem quem goste). Ela nem soube disso, mas minha paixão pela Literatura começou com a feliz coincidência de encontrar, em uma prateleira do caixa do Pão de Açúcar, um livro dela. Eu compro o livro pela capa. E pelo título. E a foto dizia muita coisa, além do título: Danuza Leão e a sua visão de mundo sem juízo. Devorei o livro, que tem uma linguagem única, da Danuza, que meio que te chama para uma conversa na sala, um bate-papo descontraído, mas que não é rasteiro.

A partir daí, como um bom obsessivo, parti em busca dos demais livros. Comprei todos! Inclusive os que estavam esgotados (Deus abençoe os sebos!). É tudo tão simples, Fazendo as malas, De malas prontas, As aparências enganam, Crônicas para guardar, Quase tudo, Todo dia e o best seller Na Sala com Danuza, que rendeu, inclusive, uma segunda edição 11 anos depois. Um manual de “convivência” que não tem regras. Ela mesmo disse que não segue. Na verdade, está mais para relatos de vida que servem para algumas outras pessoas. Até hoje compro os livros dela para presentear os meus amigos. Por minha culpa se formam novos fãs da Danuza Leão diariamente. 

Vida movimentada, diga-se de passagem, que rende monitoramento e, às vezes, perseguição dos mais caretas e defensores do politicamente correto. Mas Danuza Leão sempre foi ousada. Se arriscou a morar fora, casou com um homem mais velho, amou muito, teve várias profissões, soube se reinventar. Sua vida já diz muito. E diz, inclusive, para os puristas de plantão que estão enchendo a internet com suas mensagens motivacionais e que, ao mesmo tempo, não gostam da liberdade do outro. O patrulhamento de quem não se preocupa com a própria vida e quer controlar a dos outros. Quando “se aposentou” e deixou de escrever regularmente suas crônicas, disse que passou a ter uma autocensura, o que não é bom. “Encaretamos”, disse.

Em seu texto de despedida, o jornalista e seu ex-editor, Bruno Astuto disse que “sua pluma era cortante, ácida, da época em que ainda sabiam ler ironias nas entrelinhas”. Realmente… Completa dizendo que recebia semanalmente diversos e-mails de leitores apaixonados. Eu também estou na lista. Se o Bruno for procurar, talvez encontre um “normalzinho”, elogiando alguma crônica, e um bem louco mesmo, pedindo por um encontro com a musa do contemporâneo. Inclusive, pasmem, em uma das minhas viagens ao Rio de Janeiro, fui até a portaria do prédio dela. Na cabeça da pessoa, Danuza iria sair, me receber, me chamar para conversar e tomar uma xícara de café. De quebra, autografar os livros. Isso tudo sem a presença da polícia. Será isso que os fãs fazem? Ou serão os stalkers? Tem um limite bem pequeno entre os dois.

Danuza se foi há alguns meses, e confesso quão difícil foi escrever esse texto. Não pela emoção da perda, nada disso. Mas sim pela conexão. Minha relação com seus textos era tão natural que não necessitava passar para o papel. Estava lá. Me vi sem saber o que escrever sobre ela, que me ajudou tanto (mesmo sem saber, repito) no meu processo de escrita e para me aprofundar mais na Literatura. Cá estamos, justamente aproveitando, e nos deleitando de seus textos, que ela nos deixou de herança. Herança que fica, enquanto ela parte para uma nova jornada, com novos desafios.

A sobremesa humilhada

Quem aí já não se deparou com um cardápio de sobremesas bem…digamos…apático, não é verdade? Vários restaurantes, por mais “chiques” que sejam, às vezes deslizam na confeitaria. Por exemplo: um lugar que oferece, divinamente bem, os mais variados cortes, saladas, acompanhamentos, bebidas… Mas aí, chega nas sobremesas: um pudim (clássico inclusive em self service) e uma musse (se for de maracujá ou limão, clássicas de  boteco, self service, hamburgueria e afins). Falta um esmero com os coitados dos docinhos. A coitada da sobremesa que sai sempre humilhada.

É claro que um pudim bem feito tem o seu valor, mas também contaria para a imagem do estabelecimento uma atenção maior para as sobremesas. Chega, digamos, em um restaurante de comida mexicana, prova lá um burrito e finaliza com um pudim? Não sei se orna. Vai em uma casa de sushi e, para fechar a noite, uma musse de maracujá? Da mesma maneira que um cardápio é pensado, com referências e ingredientes que harmonizem, o menu da confeitaria também deveria ser assim. O momento da sobremesa é o fechamento da experiência, é a continuação do processo de visitar um local.

Olha, obviamente o chef ou dono do restaurante não é obrigado a conhecer a confeitaria. Até porque os profissionais se especializam e se direcionam para algo específico. Embora estudem para saber “tudo” de cozinha, não necessariamente, repito, de confeitaria. Mas aí ele precisa ter a humildade de admitir que não sabe sobre, e contratar alguém especializado para fazer um menu à parte. Se esse profissional ficar, ótimo. Senão, pode treinar uma equipe. “Ah, mas eu vou ter que gastar…” Vai, se quiser manter um cliente. Inclusive, é preciso investir. Restaurantes são incríveis justamente pela preocupação com os detalhes.

Detalhe: não humilhe a sobremesa. Você vai precisar dela um dia.

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