A farofa, os farofeiros e a nova farofa

A farofa é um prato genuinamente brasileiro. Herança indígena. Seja no acompanhamento ou até mesmo como destaque no prato, a combinação de farinha de mandioca e gordura é um sucesso. Se quiser incrementar e adicionar mais algum ingrediente (bacon, carne, ovos, cebola, alho), sucesso também. Como também guardamos boas comidas na memória, lembro da melhor farofa que já comi. Em Fortaleza mesmo. Uma chef cearense, em um restaurante pequeno, bem aconchegante e super exclusivo. Tão exclusivo que nem placa tinha, e a propaganda é feita no boca a boca. Super crocante e saborosa. Não gosto muito que usem o termo “gastronomia afetiva” (na verdade, não gosto nem um pouco), mas é óbvio que existem boas lembranças com as comidas.

Farofa também lembra de praia. As famílias chegam com seus depósitos e caixas térmicas cheias de comida. Cada família guarda seus saberes e seus sabores. Cada depósito com um tempero. As famílias se divertem, aproveitam o sol, o vento… Algumas levam as suas caixinhas de som, seus instrumentos, e transformam a areia em um belo palco. É o popular genuíno. Percebemos a alegria das famílias, que tiram um tempo da loucura do mundo para aproveitar a vida.

Agora surge uma nova farofa. Essa, que não orna nem como prato principal e nem como acompanhamento. Sabe aquele bacon que passa do ponto na panela e que amarga na boca quando você prova? Misturam na farinha e acabam desandando a farofa toda. Mas tem quem aplauda. A série Black Mirror já havia cantado a pedra há algum tempo e, mesmo assim, assistimos de camarote (ou pelas telas do celular) o futuro chegar. (Sub) Celebridades com seus trajes, no mínimo, de gosto duvidoso (mas aí fica na dúvida de cada um), no desespero por likes, se rendendo à humilhações e atenção do exército fiel de fãs.

Tem quem goste. Indústria milionária. Ar de exclusividade e superioridade. Quem vê de fora, deslumbrado, pensa ser a feira dos campeões. Tal qual uma feira de rua, a exposição das peças, de pessoas que vivem do espetáculo, e que, ao mesmo tempo, se ofendem pela exibição do que não está no roteiro. Eu, simples mortal, só acompanho. Na companhia de uma frigideira, manteiga e, claro, farinha. Farofa de qualidade.

Imagem: reprodução internet

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