Festa “de adesão”‘

Antigamente, o protocolo era: o anfitrião que oferece uma festa ou evento arca com os custos da comida, e o convidado leva um presente (a depender do nível de amizade ou amor, o presente fica melhor). Simples assim. Padrão irretocável. Mas parece que, atualmente, esse código de conduta está ameaçado. Está cada vez mais comum vir escrito no convite que o evento precisa de “adesão”, ou é “compartilhado”. O que isso significa? Quem oferece a festa não paga mais (mas continua a querer o presente). Ou acha que a modernidade autoriza isso. Não sei bem…

Para que eu não me torne, no imaginário do leitor, um completo rabugento, vamos a alguns pontos. Primeiro: quando o “convidado” tem que pagar pela sua comida, a festa torna-se um happy hour, uma confraternização da firma. Não é, por exemplo, a comemoração do aniversário de alguém. No máximo, uma reunião de amigos. Obviamente, isso não é ruim. Segundo: essa “ideia” de cada um pagar o seu não deve partir do anfitrião. Casos os amigos, queiram se reunir para comer e, também, comemorar o aniversário, tudo bem. Se querem presentear o amigo com uma festa, tudo bem. Só não está bem isso me ser imposto.

Se eu recusar o convite de pronto, aí que vão ter certeza que sou rabugento. Se criar uma história de consulta, ou visitar a tia, até que vai, mas dominar a arte de não decepcionar um amigo não é para qualquer um. Amigo sente o cheiro da mentira. Melhor, então, pagar a “adesão”. Será?

Vamos, então, propor um novo protocolo. O antigo, o tradicional, continua como prioridade. O novo é: caso seja sugerido pagar pela comida, que a ideia parta dos amigos. Até pode partir do próprio anfitrião, mas nada de surpresas. E outra: nem espere por presente. Dê tchauzinho para o vinho chique. Quem vai tomar sou eu que vou pagar a conta. Agora, sobre o bolo, não tem conversa. Do bolo eu não abro mão! É claro que existem exceções, rolar um problema financeiro…Tudo é questão de manter o diálogo.

Talvez essa experiência só sirva para mim, e para mais ninguém. Coisa de rabugento mesmo.

Foto por Ibrahim Boran em Pexels.com

O doce aroma do biscoito de arroz

A experiência gastronômica não é só o “comer”, mas todo o processo que leva até a garfada. Na verdade, a garfada é o êxtase, a premiação (ou, se a comida for ruim, a aflição). Você observa a apresentação, harmonização, sente o aroma e, só depois, come. Até a mastigação é um ato de experiência. Tentamos sentir os sabores, identificar quais ingredientes… Tudo isso faz parte do processo de comer. Já está tão presente nas nossas vidas que às vezes  fazemos esse “passo a passo” sem perceber. Agora, quando um dos itens do checklist deixa de ser feito, percebemos. Um bem importante, diga-se de passagem.

Imagina comer sem sentir um pingo de sabor. Nada. Parece que você está comendo aqueles biscoitos de arroz que o nutricionista passa, para que você tenha mais ódio de comida “saudável”. A perda de olfato, e, consequentemente, do paladar, são sintomas típicos do corona. Não precisa nem trabalhar com comida, ou escrever sobre comida para ficar aflito. Além do medo de estar doente (já que o vírus é traiçoeiro), o receio de ficar com o olfato comprometido, sentindo chulé no café, por exemplo. Tem uma conhecida minha, coitada, que até hoje não está sentindo cheiro. Uma vida inteira de biscoitos de arroz não dá!

Foram dias, digamos, estranhos. Comer sem gosto é difícil. Até para engolir é trabalhoso. O organismo pede um temperinho que seja. Mas o segredo é torcer e esperar pelo melhor. Acho que manter a cabeça no lugar e pedir a proteção de Deus garante que a gente passe por essa provação. Aos poucos, após os dias de isolamento, voltei a sentir os aromas e sabores. Não precisei fazer um tratamento para isso (tem gente que precisa de acompanhamento médico e remédios pesados para sentir os cheiros de volta). Restaurantes, preparem-se. Voltei com tudo! E com um ranço ainda maior dos biscoitos de arroz.

Foto por Vie Studio em Pexels.com

O de sempre?

Sempre achei muito bacana quando alguém chega em um restaurante, e o garçom ou maître o recebe maravilhosamente bem. Não falo da recepção cordial que todo estabelecimento precisa ter (obviamente todos precisam ser educados e tratar o cliente com respeito), mas de uma intimidade formada ao longo do tempo. Uma relação entre cliente e profissionais, além de cliente e dono. Eles se conhecem, e são quase amigos. Chega no local e já sabem qual mesa oferecer, qual bebida ele prefere e qual comida. Aquele “o de sempre?”, que deixa qualquer pessoa super satisfeita.

Tornar-se conhecido em um restaurante, por exemplo, é um processo longo. Primeiro, é preciso saber se o cliente não é um louco aproveitador. Depois, se o restaurante não é meia boca, onde a cozinha é só “limpinha” e o ingrediente secreto é salmonela. Depois de firmado esse primeiro passo de confiança, a rotina. Sim, para formar uma amizade entre cliente e proprietário (e profissionais) são necessárias muitas idas ao local. Depois da vigésima visita, vocês começam a falar sobre os pratos, ingredientes, harmonizações…  Depois desse ponto, todos se conhecem pelo primeiro nome, e a sua mesa está garantida.

Já o critério de avaliação vai para o buraco. Como ser imparcial com seus amigos? Na verdade, até existe a possibilidade de avaliar os amigos. Se for falar bem, sempre vão ficar com o pé atrás (“ah, mas é amigo dele”). Agora, se for para falar mal, a amizade formada precisa ser bastante sólida. Se por um lado as pessoas vão elogiar (“olha, ele fala a verdade mesmo sendo o restaurante de um amigo”), por outro, corre o risco de o amigo dono de restaurante não gostar nem um pouco, e a relação construída ao longo dos anos desmoronar. Ganha o título de persona non grata e raramente voltará a comer no local.

Mas quer saber? Se a comida ficar ruim com o tempo, e se o dono não perceber isso, não precisa nem deixar de me chamar. Eu nem iria mais.

Foto por Anna Tis em Pexels.com

Café da manhã de novela

Como são magníficos os cafés da manhã das novelas. Mesas de três metros de comprimento cheias de comida. Queijo, geleia, pães (mesa de novela que se preze precisa ter pelo menos três tipos de pães), bolo, café, leite, queijo e suco. Ah, não pode faltar o suco. Pelo menos o de laranja. E tudo isso arrumado às seis e meia da manhã. Obviamente, as famílias de novela que possuem mesas assim também contam com a ajuda de diversos funcionários. A família acorda, e já está tudo pronto para ser consumido. Tudo pronto, mas quase ninguém come. Ou, se come, pouquíssimo. Aliás, a cena do café da manhã de novela só fica completa quando um personagem desce as escadas super apressado, e avisa que não vai tomar café em casa. Na verdade, toma um gole de suco e vai embora, pois já está atrasado.

Pelo menos, uma parte dessa cena está correta: a de que o tempo é corrido, e não dá para comer em casa. Melhor: vamos esmiuçar essa cena. Primeiro que a grande massa não tem vários funcionários para deixar uma mesa posta às seis e meia da manhã. Quem põe a mesa somos nós mesmos, quando temos tempo (quase nunca, quem sabe no fim de semana). E só sai mesmo um café preto com leite, e pão dormido que sobrou. Quando não temos tempo, comemos uma banana, e o café a gente toma, sei lá, no posto de combustíveis, ou no ponto de ônibus, naquelas banquinhas, enquanto a condução não aparece.

O suco de laranja é de caixa. Quem tem a disposição de fazer suco diariamente, às seis, para tomar sozinho? E nem adianta deixar do dia anterior que não fica bacana. E os pães? Quais os tipos? Do dia, ou dormido. Quem sai cedo para trabalhar lá tem tempo de comprar pão. Traz a noite para comer no dia seguinte.

Nem adianta se basear nas novelas. Embora sejam magníficos os cafés da manhã, tudo não passa de ficção. Mas pensa aqui comigo: como devem ser chatos os cafés da manhã das novelas. Penso todos os dias…

Foto por Emrah Tolu em Pexels.com