Danuza, o cotidiano e o contemporâneo

Além da motivação com os professores mais “da Literatura” na faculdade, Danuza Leão foi a “responsável” pela minha entrada nesse mundo. Mundo da escrita, das crônicas (que às vezes eu acho que nem são, mas tem quem goste). Ela nem soube disso, mas minha paixão pela Literatura começou com a feliz coincidência de encontrar, em uma prateleira do caixa do Pão de Açúcar, um livro dela. Eu compro o livro pela capa. E pelo título. E a foto dizia muita coisa, além do título: Danuza Leão e a sua visão de mundo sem juízo. Devorei o livro, que tem uma linguagem única, da Danuza, que meio que te chama para uma conversa na sala, um bate-papo descontraído, mas que não é rasteiro.

A partir daí, como um bom obsessivo, parti em busca dos demais livros. Comprei todos! Inclusive os que estavam esgotados (Deus abençoe os sebos!). É tudo tão simples, Fazendo as malas, De malas prontas, As aparências enganam, Crônicas para guardar, Quase tudo, Todo dia e o best seller Na Sala com Danuza, que rendeu, inclusive, uma segunda edição 11 anos depois. Um manual de “convivência” que não tem regras. Ela mesmo disse que não segue. Na verdade, está mais para relatos de vida que servem para algumas outras pessoas. Até hoje compro os livros dela para presentear os meus amigos. Por minha culpa se formam novos fãs da Danuza Leão diariamente. 

Vida movimentada, diga-se de passagem, que rende monitoramento e, às vezes, perseguição dos mais caretas e defensores do politicamente correto. Mas Danuza Leão sempre foi ousada. Se arriscou a morar fora, casou com um homem mais velho, amou muito, teve várias profissões, soube se reinventar. Sua vida já diz muito. E diz, inclusive, para os puristas de plantão que estão enchendo a internet com suas mensagens motivacionais e que, ao mesmo tempo, não gostam da liberdade do outro. O patrulhamento de quem não se preocupa com a própria vida e quer controlar a dos outros. Quando “se aposentou” e deixou de escrever regularmente suas crônicas, disse que passou a ter uma autocensura, o que não é bom. “Encaretamos”, disse.

Em seu texto de despedida, o jornalista e seu ex-editor, Bruno Astuto disse que “sua pluma era cortante, ácida, da época em que ainda sabiam ler ironias nas entrelinhas”. Realmente… Completa dizendo que recebia semanalmente diversos e-mails de leitores apaixonados. Eu também estou na lista. Se o Bruno for procurar, talvez encontre um “normalzinho”, elogiando alguma crônica, e um bem louco mesmo, pedindo por um encontro com a musa do contemporâneo. Inclusive, pasmem, em uma das minhas viagens ao Rio de Janeiro, fui até a portaria do prédio dela. Na cabeça da pessoa, Danuza iria sair, me receber, me chamar para conversar e tomar uma xícara de café. De quebra, autografar os livros. Isso tudo sem a presença da polícia. Será isso que os fãs fazem? Ou serão os stalkers? Tem um limite bem pequeno entre os dois.

Danuza se foi há alguns meses, e confesso quão difícil foi escrever esse texto. Não pela emoção da perda, nada disso. Mas sim pela conexão. Minha relação com seus textos era tão natural que não necessitava passar para o papel. Estava lá. Me vi sem saber o que escrever sobre ela, que me ajudou tanto (mesmo sem saber, repito) no meu processo de escrita e para me aprofundar mais na Literatura. Cá estamos, justamente aproveitando, e nos deleitando de seus textos, que ela nos deixou de herança. Herança que fica, enquanto ela parte para uma nova jornada, com novos desafios.