Comfort food

Os portais de gastronomia elegem a comfort food como aquele alimento que causa nostalgia, que tem um alto valor sentimental. Enfim, como o próprio nome diz, uma comida que causa conforto. Às vezes, vai além do peso gastronômico. Todos possuem alguma lembrança ou algum episódio que volta à memória quando comemos. Sempre ouvi dos mais antigos que duas coisas que fazem relembrar o passado são perfume e comida (quem também tem cheiro). Para mim, isso está certíssimo. 

É claro que não são todas as comidas. Isso é junk food. Mas podem ser doces ou salgadas As nostálgicas, para mim, são as comidas de vó. Até as ruins carregam uma lembrança. Corrigindo: das avós, são todas as comidas. Comida de vó é comfort food do início ao fim. Até tomar um copo de água na casa da avó me remete a algo. Por exemplo: comer bolo mole (feito com ovo das galinhas criadas no interior, tudo natural) me leva ao apartamento de Fortaleza. Eu ajudando a pesar a massa, acompanhando as orientações em um dos seus vários cadernos de receitas (que eu espero herdar). Colocando a massa no liquidificador marrom (antigamente o branco não era a cor padrão).

Se eu como a galinhada feita por ela, lembro-me dos banquetes (não significa comida chique, mas farta) em Amontada. Da ceia de Natal no interior, embaixo da mangueira, com frango e porco criados no quintal de casa, arroz soltinho, feijão saboroso, e todos reunidos: primos, tios, agregados.

Por isso que é difícil um restaurante grande fazer comfort food. Restaurantes, principalmente os grandes, servem comida em série. O cozinheiro recebe o pedido, faz o prato seguindo a receita e despacha para o salão.  Não há tanto envolvimento assim, embora eles amem trabalhar.

É claro que existem as exceções. É claro também que fazer comida em série não significa uma comida feita sem amor. Mas comida de vó é incomparável!

Foto: Iury Costa

Passeio no mercado

Nunca repensamos tanto a nossa vida como agora. Começamos a valorizar detalhes que antes passavam despercebidos. Aromas, cores e sabores que antes não tinham atenção, começam a fazer parte da sua vida. No meu caso, ultimamente, são os sentidos nos mercados municipais. Locais cheios de história, que recebem todas as pessoas sem distinção, e que chamam por um passeio. Muito bom caminhar sem rumo dentro de um mercado!

Admito, nem sempre são aromas “convidativos”. Passar pelo setor de peixes é um desafio. Mas o de frutas ameniza. Cores lindas, e cheiros marcantes. E as comidas? Aí sim, valem a pena. Bom mesmo é passear pelo mercado sem compromisso, comprar algumas coisinhas para levar (castanha, fruta, borracha da panela de pressão), e depois parar em uma banca para comer. Opção é o que não falta.

No mercado, gosto das comidas mais tradicionais possíveis. Para mim, o gourmet não pode nunca adentrar as portas sagradas de um mercado popular de rua. Perde a essência. Aliás, o “gourmet” não pega bem em nada. É apenas um termo inventado para cobrar preços absurdos.

Mercado precisa de comida, como dizem os antigos, “grosseira”. Aqui no Ceará, mercado que se preze tem que vender panelada, buchada, sarrabulho, uma carne de porco bem feita… Alguns nomes fogem do entendimento de quem é conterrâneo. Mas, o que precisam saber é que são comidas excelentes. Tem quem não goste, mas pelo valor da tradição, são ótimas.

Dando uma passada em alguns mercados pelo Brasil, vejo que o Ceará tem muito potencial a ser explorado. Se os governantes quisessem, poderiam transformar esses lugares em pontos de encontro da cidade. Quem sabe até turístico. Até o de Fortaleza, a capital, é pouco explorado “gastronomicamente falando”. Além da Igreja Matriz, o Mercado deve ser o ponto principal da cidade.

Imagina só, sentar em uma mesa no mercado, jogar conversa fora enquanto aprecia uma boa panelada com cuscuz, e tomar uma boa cajuína. É isso!

Foto: Iury Costa

Quem vai pagar a conta?

Um conhecido meu, dono de restaurante, foi pego de surpresa com o decreto obrigando o fechamento temporário do seu negócio e de outros milhares, por conta da incerteza dos governos em saber o que era mais eficaz contra o corona. Ainda tentou manter o sistema de entregas, mas a queda brusca no faturamento já era uma realidade. E somado a isso, a situação já delicada que muitos pequenos e médios negócios vivem no Brasil, com poucas reservas financeiras. Já era de se esperar a bola de neve dos próximos capítulos. Dificuldades para pagar os fornecedores, contas e salários. Para diversos restaurantes, o decreto foi outro: falência.

Óbvio que o isolamento social seria eficaz em um primeiro momento, para reduzir a contaminação e conscientizar a população acerca dos cuidados. Mas com novas informações chegando, e atualizando acerca, outras medidas deveriam ser tomadas, inclusive o retorno das atividades, com, é claro, todos os cuidados tomados. Mas os governantes, me parece, preferiram seguir o caminho da política, aproveitando o momento para angariar alguma aprovação. Com o discurso batido de “vidas em primeiro lugar”, decretam a morte dos pequenos negócios e pequenos empregadores. E nenhuma morte vale mais que a outra. Todas geram sofrimento.

Aí as pessoas perguntam se adianta agora abrir os restaurantes, já que praticamente ninguém está deixando as casas. Agora não dá mais tempo, já que os governantes (junto com parte da imprensa) preferiram seguir pelo caminho do pavor, deixando as pessoas desesperadas e pensando que a morte estava dormindo ao lado. Que poderiam morrer até em pisar no capacho da porta da frente. Mesmo com relatos da própria Organização Mundial da Saúde informando que o coronavírus seria, para a maior parte da população, um resfriado. Mas para além disso. Hoje as pessoas (pelo menos a maior parte) estão mais conscientes acerca dos riscos desse vírus. E acredito que os cuidados seriam redobrados em um possível retorno das atividades.

Essa solução pode não ser aceita, mas deveria, pelo menos, ser debatida. Ou estamos na Idade Média, onde não podemos contestar ninguém?

Foto por Allen em Pexels.com

Comer na rua, boa ideia?

Sempre quando vejo pessoas comendo na rua, altas horas da noite, fico com a sensação de que são corajosas ao extremo. E são mesmo. Outro dia, voltava de um evento, quando avisto um bar bem movimentado. O espaço, por outro lado, era mínimo. Apenas um balcão extenso onde eram servidas as bebidas. Além do bar (que era minúsculo) estar cheio, as pessoas aproveitavam mesmo na calçada. Estava um formigueiro. Pessoas se divertindo livremente, como se o mundo fosse um mar de rosas. Com a sensação de segurança nos pés e, mesmo assim, enfrentam a noite para se divertir.

Eu, pelo menos, acho um risco enorme sair de casa para comer na calçada, ou em uma varanda para a rua. Não sei se é a ansiedade, mas sempre acharei que pode aparecer um ladrão a qualquer momento. E isso paralisa. Faz com que nem aproveitemos a comida. E pode ser a melhor comida, mas se for para comer na calçada, ela trava na garganta. A noite realmente é maravilhosa, e com muito a se aproveitar. Mas, hoje em dia, só arrisco aproveitá-la em lugares fechados. No máximo, com vista para a rua. E isso de uma distância segura.

Hoje é comum eventos, inclusive de gastronomia, que tentam imitar a rua, mas com segurança, como food trucks estacionados dentro de um terreno (embora seja um absurdo), e festivais de comida de rua em locais cercados. Embora seja errado, foi a saída que as pessoas encontraram para ter uma falsa sensação de segurança. Inclusive está na moda hoje o discurso de apropriação dos espaços públicos. Também defendo isso, com mais atividades ao ar livre e uma verdadeira ocupação. É claro que precisamos de garantias de que o “estar” na rua seja seguro. Ou, pelo menos, que exista a sensação de que estamos seguros.

Infelizmente a bandidagem e, obviamente, a insegurança, foram nos afastando da rua. Calçada? Jamais! Varandinha? Deus me livre! Cobro de mim mesmo essa participação maior nos espaços ao ar livre. Se o poder público não nos dá essa sensação, tentemos aos poucos essa apropriação. Ansiedade de lado (ou após um comprimido), para aproveitar a comida sob a luz do luar.

Foto por Sunyu Kim em Pexels.com

Idiotas úteis

Na era da informação, as redes sociais bombam. Redes e pessoas. Tem digital influencer pra todo tipo de gosto. Até de más influências. As portas abriram-se, também, para os blogueiros de comida, como este que vos escreve. As pessoas compartilham experiências de locais que frequentam, dicas de comidas e lugares bacanas para conhecer. Que harmonia maravilhosa, se fosse o que realmente está no papel. Na tela, na verdade. Pois, como em qualquer outra “profissão” (se é que podemos chamar assim), existem os aproveitadores que se passam de blogueiros para comer de graça todos os dias.

Não tem problema em comer de graça nos lugares, até porque eu também sou chamado para conhecer diversos lugares. Mas o que dá para perceber nas postagens dessas pessoas é que não existe conteúdo gastronômico (ou jornalístico, em alguns casos). Nem uma avaliação mínima. O que não falta, e isso a gente percebe de cara, são as marcações dos restaurantes e das marcas. Pela sede de serem vistos pelas empresas, além das marcações, despejam elogios. Na tentativa de entrarem na lista de comedores gratuitos. Na verdade, que fazem merchan por um prato de comida.

Em uma pesquisa rápida de perfis, não é difícil encontrar exemplos de pessoas que deixaram há tempos a imparcialidade de lado, para misturar, no mesmo caldeirão, publicidade e conteúdo que deveria ser informativo. Devem pensar que sou um jornalista amargo. Mas penso que deve haver essa separação entre o merchan e o conteúdo. Não há problema, inclusive, em fazer merchan. Mas que fique claro aos leitores. E que isso não se reflita na troca por conteúdos. Eu, pelo menos, sempre deixei claro que um convite não se transformaria, necessariamente, em um post. E, caso se tornasse, seria por decisão minha.

Sobre essa questão do prato de comida, nós temos que olhar para o outro lado também. Esses “influencers”, talvez, sejam apenas vítimas. Idiotas úteis. Já que, do outro lado, existe uma empresa que viu a oportunidade de marketing barato. Mandam um presentinho e caem. Repito: devemos sim fazer merchan, principalmente porque não vivemos de luz. Mas… Valorizem-se!

Foto por Pixabay em Pexels.com

Iury Costa

Jornalista (amante de café, obviamente) desde um dia desse. Também sou confeiteiro, quase barista, e aspirante a escritor. Escrevo crônicas sobre situações cotidianas, e vou tentar trazer para o Sem Rótulo a leveza e a informalidade desse gênero para tentar falar sobre gastronomia. Sobre experiências gastronômicas, principalmente. Aliás, sobre o tema, já escrevo há alguns anos. Antes em outro endereço e, agora, aqui. Não sou canônico, e, portanto, minha verdade pode não ser a sua. E não tem problema algum.