Na calada da noite

Insônia é fogo. Talvez até no sentido de que você está tão “aceso”, a cabeça está tão ativa, que não consegue deitar. São tantos problemas que a gente enfrenta diariamente, que o corpo não sabe a hora de parar de pensar neles. No meu caso, nem de madrugada. Tem dias que ela dá trégua, e eu consigo dormir bem. Tomo um chá, algum remédio natural, e durmo. Mas têm momentos que nem com reza. Noite em claro, assistindo aqueles programas de igreja que passam de madrugada, filme que foi inédito há 30 anos, esperando o dia clarear. Não sou fã dos remédios controlados. Tenho medo de ficar dependente. Por isso que, às vezes, passo dias virado.

Uma dessas noites, decidi fazer algo diferente. Como já tinha certeza de que não ia dormir, pedi um táxi para rodar pela cidade. Ver como funciona a Fortaleza na calada da noite. Primeira certeza: não é parecida com a Fortaleza louca do dia. Óbvio que o movimento é bem menor. São poucas as pessoas que trabalham nesse horário, digamos, alternativo.

Faltam trabalhadores, sobram boêmios. Talvez sejam trabalhadores no contraturno. Ou então são vagabundos convictos. Nada de confundir vagabundo com ladrão. O vagabundo original tem classe, tem bom gosto, às vezes trabalha para sustentar os vícios, ou tem excelentes amizades que banquem tudo.

Voltando para a noite de Fortaleza… São poucos os estabelecimentos que funcionam à noite. Boates, postos de combustíveis, hospitais… Restaurantes renomados fecham, no máximo, uma hora da manhã. Cabe aos “pé sujo”, com comidas gostosas até certo ponto, e com preparação duvidosa, atenderem esse público. Locais onde os boêmios recorrem para terminar a noite. Melhor: iniciar um novo dia. A bebida, por outro lado, é garantida. Além de serem locais com histórias memoráveis. Ninguém vai perder tempo de inventar histórias de vida em plena madrugada.

Pedi ao taxista para me deixar em algum bar/restaurante que já frequentou. Sentei no balcão, pedi uma dose e uma porção de panelada, e fiquei observando os outros membros do local. Me chama atenção um senhor muito bem vestido, de paletó e gravata. Um dos braços em volta de uma garrafa de cachaça. A outra mão escrevia em um caderno.

Me aproximei e comecei a conversar com ele. É um advogado bem conceituado, e que trabalha em um escritório chique da cidade. Mora sozinho em um apart hotel e, por causa da solidão, vai todas as noites ao bar. Bebe, come, e escreve contos. Pensa, no futuro, em lançar um livro. Depois, já quase pela manhã, volta para casa para dormir. Foi o que eu fiz também.

Como o estômago não sabe a hora que está recebendo comida, fico com as consideradas “pesadas”. Panelada combina com a noite. Esquenta por dentro quando se está com frio. Aproveito a noite para ter outras “experiências gastronômicas”: frituras que aparentam estar lá há mais tempo que o dono, salada de maionese de legumes pouco descascados e com cheirinho de rua… Por outro lado, a costelinha com molho barbecue era dos deuses. Suculenta, crocante por fora e macia por dentro. Nem quero saber o que ele usou no tempero. Melhor assim.

Depois de algumas horas e doses depois, o sono finalmente veio. Chamei o mesmo taxista, me despedi do amigo advogado, e já soltei um “até amanhã”. Talvez era disso que eu precisava: conhecer uma nova Fortaleza, que fosse mais calma e me abraçasse melhor que a Fortaleza diurna.

Foto por Chris F em Pexels.com

Festa “de adesão”‘

Antigamente, o protocolo era: o anfitrião que oferece uma festa ou evento arca com os custos da comida, e o convidado leva um presente (a depender do nível de amizade ou amor, o presente fica melhor). Simples assim. Padrão irretocável. Mas parece que, atualmente, esse código de conduta está ameaçado. Está cada vez mais comum vir escrito no convite que o evento precisa de “adesão”, ou é “compartilhado”. O que isso significa? Quem oferece a festa não paga mais (mas continua a querer o presente). Ou acha que a modernidade autoriza isso. Não sei bem…

Para que eu não me torne, no imaginário do leitor, um completo rabugento, vamos a alguns pontos. Primeiro: quando o “convidado” tem que pagar pela sua comida, a festa torna-se um happy hour, uma confraternização da firma. Não é, por exemplo, a comemoração do aniversário de alguém. No máximo, uma reunião de amigos. Obviamente, isso não é ruim. Segundo: essa “ideia” de cada um pagar o seu não deve partir do anfitrião. Casos os amigos, queiram se reunir para comer e, também, comemorar o aniversário, tudo bem. Se querem presentear o amigo com uma festa, tudo bem. Só não está bem isso me ser imposto.

Se eu recusar o convite de pronto, aí que vão ter certeza que sou rabugento. Se criar uma história de consulta, ou visitar a tia, até que vai, mas dominar a arte de não decepcionar um amigo não é para qualquer um. Amigo sente o cheiro da mentira. Melhor, então, pagar a “adesão”. Será?

Vamos, então, propor um novo protocolo. O antigo, o tradicional, continua como prioridade. O novo é: caso seja sugerido pagar pela comida, que a ideia parta dos amigos. Até pode partir do próprio anfitrião, mas nada de surpresas. E outra: nem espere por presente. Dê tchauzinho para o vinho chique. Quem vai tomar sou eu que vou pagar a conta. Agora, sobre o bolo, não tem conversa. Do bolo eu não abro mão! É claro que existem exceções, rolar um problema financeiro…Tudo é questão de manter o diálogo.

Talvez essa experiência só sirva para mim, e para mais ninguém. Coisa de rabugento mesmo.

Foto por Ibrahim Boran em Pexels.com

O doce aroma do biscoito de arroz

A experiência gastronômica não é só o “comer”, mas todo o processo que leva até a garfada. Na verdade, a garfada é o êxtase, a premiação (ou, se a comida for ruim, a aflição). Você observa a apresentação, harmonização, sente o aroma e, só depois, come. Até a mastigação é um ato de experiência. Tentamos sentir os sabores, identificar quais ingredientes… Tudo isso faz parte do processo de comer. Já está tão presente nas nossas vidas que às vezes  fazemos esse “passo a passo” sem perceber. Agora, quando um dos itens do checklist deixa de ser feito, percebemos. Um bem importante, diga-se de passagem.

Imagina comer sem sentir um pingo de sabor. Nada. Parece que você está comendo aqueles biscoitos de arroz que o nutricionista passa, para que você tenha mais ódio de comida “saudável”. A perda de olfato, e, consequentemente, do paladar, são sintomas típicos do corona. Não precisa nem trabalhar com comida, ou escrever sobre comida para ficar aflito. Além do medo de estar doente (já que o vírus é traiçoeiro), o receio de ficar com o olfato comprometido, sentindo chulé no café, por exemplo. Tem uma conhecida minha, coitada, que até hoje não está sentindo cheiro. Uma vida inteira de biscoitos de arroz não dá!

Foram dias, digamos, estranhos. Comer sem gosto é difícil. Até para engolir é trabalhoso. O organismo pede um temperinho que seja. Mas o segredo é torcer e esperar pelo melhor. Acho que manter a cabeça no lugar e pedir a proteção de Deus garante que a gente passe por essa provação. Aos poucos, após os dias de isolamento, voltei a sentir os aromas e sabores. Não precisei fazer um tratamento para isso (tem gente que precisa de acompanhamento médico e remédios pesados para sentir os cheiros de volta). Restaurantes, preparem-se. Voltei com tudo! E com um ranço ainda maior dos biscoitos de arroz.

Foto por Vie Studio em Pexels.com

O de sempre?

Sempre achei muito bacana quando alguém chega em um restaurante, e o garçom ou maître o recebe maravilhosamente bem. Não falo da recepção cordial que todo estabelecimento precisa ter (obviamente todos precisam ser educados e tratar o cliente com respeito), mas de uma intimidade formada ao longo do tempo. Uma relação entre cliente e profissionais, além de cliente e dono. Eles se conhecem, e são quase amigos. Chega no local e já sabem qual mesa oferecer, qual bebida ele prefere e qual comida. Aquele “o de sempre?”, que deixa qualquer pessoa super satisfeita.

Tornar-se conhecido em um restaurante, por exemplo, é um processo longo. Primeiro, é preciso saber se o cliente não é um louco aproveitador. Depois, se o restaurante não é meia boca, onde a cozinha é só “limpinha” e o ingrediente secreto é salmonela. Depois de firmado esse primeiro passo de confiança, a rotina. Sim, para formar uma amizade entre cliente e proprietário (e profissionais) são necessárias muitas idas ao local. Depois da vigésima visita, vocês começam a falar sobre os pratos, ingredientes, harmonizações…  Depois desse ponto, todos se conhecem pelo primeiro nome, e a sua mesa está garantida.

Já o critério de avaliação vai para o buraco. Como ser imparcial com seus amigos? Na verdade, até existe a possibilidade de avaliar os amigos. Se for falar bem, sempre vão ficar com o pé atrás (“ah, mas é amigo dele”). Agora, se for para falar mal, a amizade formada precisa ser bastante sólida. Se por um lado as pessoas vão elogiar (“olha, ele fala a verdade mesmo sendo o restaurante de um amigo”), por outro, corre o risco de o amigo dono de restaurante não gostar nem um pouco, e a relação construída ao longo dos anos desmoronar. Ganha o título de persona non grata e raramente voltará a comer no local.

Mas quer saber? Se a comida ficar ruim com o tempo, e se o dono não perceber isso, não precisa nem deixar de me chamar. Eu nem iria mais.

Foto por Anna Tis em Pexels.com

Passeio no mercado

Nunca repensamos tanto a nossa vida como agora. Começamos a valorizar detalhes que antes passavam despercebidos. Aromas, cores e sabores que antes não tinham atenção, começam a fazer parte da sua vida. No meu caso, ultimamente, são os sentidos nos mercados municipais. Locais cheios de história, que recebem todas as pessoas sem distinção, e que chamam por um passeio. Muito bom caminhar sem rumo dentro de um mercado!

Admito, nem sempre são aromas “convidativos”. Passar pelo setor de peixes é um desafio. Mas o de frutas ameniza. Cores lindas, e cheiros marcantes. E as comidas? Aí sim, valem a pena. Bom mesmo é passear pelo mercado sem compromisso, comprar algumas coisinhas para levar (castanha, fruta, borracha da panela de pressão), e depois parar em uma banca para comer. Opção é o que não falta.

No mercado, gosto das comidas mais tradicionais possíveis. Para mim, o gourmet não pode nunca adentrar as portas sagradas de um mercado popular de rua. Perde a essência. Aliás, o “gourmet” não pega bem em nada. É apenas um termo inventado para cobrar preços absurdos.

Mercado precisa de comida, como dizem os antigos, “grosseira”. Aqui no Ceará, mercado que se preze tem que vender panelada, buchada, sarrabulho, uma carne de porco bem feita… Alguns nomes fogem do entendimento de quem é conterrâneo. Mas, o que precisam saber é que são comidas excelentes. Tem quem não goste, mas pelo valor da tradição, são ótimas.

Dando uma passada em alguns mercados pelo Brasil, vejo que o Ceará tem muito potencial a ser explorado. Se os governantes quisessem, poderiam transformar esses lugares em pontos de encontro da cidade. Quem sabe até turístico. Até o de Fortaleza, a capital, é pouco explorado “gastronomicamente falando”. Além da Igreja Matriz, o Mercado deve ser o ponto principal da cidade.

Imagina só, sentar em uma mesa no mercado, jogar conversa fora enquanto aprecia uma boa panelada com cuscuz, e tomar uma boa cajuína. É isso!

Foto: Iury Costa

Iury Costa

Jornalista (amante de café, obviamente) desde um dia desse. Também sou confeiteiro, quase barista, e aspirante a escritor. Escrevo crônicas sobre situações cotidianas, e vou tentar trazer para o Sem Rótulo a leveza e a informalidade desse gênero para tentar falar sobre gastronomia. Sobre experiências gastronômicas, principalmente. Aliás, sobre o tema, já escrevo há alguns anos. Antes em outro endereço e, agora, aqui. Não sou canônico, e, portanto, minha verdade pode não ser a sua. E não tem problema algum.